Depois de uma elogiada e endoidecida apresentação nos palcos do Festival DoSol em Natal(RN), o Mechanics sobe novamente ao palco do consagrado Goiânia Noise. Eles se apresentam no sábado, dia 20 de novembro, e promete um show insano com repertório focado no seu último trabalho, 12 Arcanos, sem deixar de lado os clássicos, que marcaram os seus 15 anos de carreira, como “Formigas Comem Porra” e “Music for Anthromorfos”. Márcio Jr. é o vocal da Mechanics, além de fazer as letras. Na entrevista a seguir, Márcio fala das inspirações e possibilidades que permearam a criação dos 12 Arcanos.
Quando eu peguei o CD 12 Arcanos para ouvir, a primeira referência que me veio a cabeça foi quanto ao uso das cartas para representar cada música... Você sabia que o Rush usou cartas de tarô no álbum “Vapor Trails” de 2002?
Não. Não sou um grande fã de Rush e não sabia disso, mas fiquei curioso agora... Vou procurar isso aí. A idéia do tarô nasceu de outra coisa. Depois de um disco complexo como o “Music for Anthropomorphics” (que vinha com o livro do Zimbres), queria, como sempre, partir para outra experiência em nosso próximo trabalho. O que surgiu como possibilidade foi a idéia de gravarmos um álbum em português, o primeiro em 15 anos de banda. Gosto da proposta de álbuns conceituais, discos como coletâneas de músicas não parecem ser muito adequados para o Mechanics.
Até então você só tinha escrito uma música em português... O que lhe levou, além de ser uma proposta e um desafio, escrever em português?
Isso foi suficiente, era o desafio que eu estava querendo enfrentar no momento. Compor em português é algo complicado a sonoridade é outra, a métrica é outra... Muitas bandas compõem em português como se estivessem traduzindo do inglês, o risco de soar piegas é grande demais, o que parece soar cool em inglês, traduzido para o português corre o risco de ficar parecendo música do Raimundo Fagner. Vejo muita gente se afundando nisso aí, então, o desafio era esse, tentar escrever algo em português, sempre escrevi em inglês (mesmo que no começo da banda meu inglês fosse absolutamente tosco) porque a música fica mais intuitiva, mais subjetiva, se você não racionaliza o que está sendo dito de maneira direta, a voz acaba se tornando um veículo de impressões, de atmosferas, acaba virando mais um instrumento e esta sempre foi a abordagem do Mechanics. Com 12 ARCANOS, quis romper com essa abordagem. Porque quando eu berro "Sou feito de ódio e vontade de morrer", isso tem um efeito direto e imediato para quem escuta a mensagem deixa de ser subjetiva, ela se torna uma mensagem mesmo, imediatamente decodificada, ou seja, tentar escrever em português no 12 ARCANOS foi deixar de lado a abordagem impressionista da música, num paralelo com movimentos artísticos, acho o 12 ARCANOS um álbum mais, digamos, expressionista. Uma vez que em português a abordagem é mais direta, pensei em trabalhar as letras usando isso como estética. Elegi temas que são centrais ao "universo" do Mechanics: morte, drogas, sexo, tecnologia, violência, caos urbano, religião... E tratei deles de forma arquetípica, o conceito do tarô foi a liga que juntou todos esses temas no álbum e ele apareceu depois de eu assistir a uma palestra do Alejandro Jodorowsky. O Jodorowsky é cineasta (El Topo, Santa Sangre, A Montanha Sagrada), roteirista de quadrinhos (o Incal), dramaturgo (ao lado de Arrabal fundou o Teatro Pânico), criador da psicomagia, tarólogo (descobriu o tarô mais antigo que se tem notícia, o tarô de Marselha), o Jodorowsky é um dos meus heróis, um cara que transita entre diversas manifestações estéticas
Sim, ele é chileno...
E esse diálogo entre linguagens é algo que sempre tive a pretensão de realizar com o Mechanics (por isso, álbuns simples, como coletâneas de músicas, não interessam à banda). Pensei então em fazer a amarração de todo o disco 12 ARCANOS, através do tarô e numa abordagem, digamos, pós-moderna.
Há a proposta de se colocar o disco no shuffle e ver a ordem que vai se desenhar para esse conjunto de músicas entende? As distintas maneiras que esses conceitos se articulam entre si
Você compôs as músicas antes de pensar nisso? A unidade se concretizou com a idéia das cartas?
Algumas músicas foram compostas antes da idéia do tarô, quando a coisa toda se desenhou na minha cabeça, continuei a compor dentro deste conceito e já pensando na arte do Lauro Roberto que era a pessoa que eu sempre tive em mente pra transmitir graficamente a densidade daquilo que eu tentava exprimir nas música.
Foto de Brunno Lobbo
É porque eu estava relacionando os quatro elementos tradicionalmente mostrado nas cartas de tarô: Terra, Fogo, Água e Ar e tem quase todos dentro das músicas dos 12 Arcanos.Terra é a carta Chão, Fogo é Fogo, Água é o Sangue, só faltou o Ar, não encontrei nada para relacionar...
Essa é a graça dos elementos arquetípicos eles são abertos à interpretação, o tarô não é necessariamente um processo divinatório, mas simbólico de leitura do inconsciente, nunca tinha pensado nos quatro elementos, mas posso estabelecer ligações agora
Sim, são cartas de autoconhecimento...
O ar é aquilo que se respira, então há elementos disso em Desmorto ou mesmo em perder o chão ou ainda na atmosfera da Cidade
No desenho da carta tem um homem cujos pés estão suspensos do chão, no ar...
O que tá proposto nos 12 ARCANOS é essa interlocução com o ouvinte ele ajuda a completar a obra, não é uma audição passiva.
Perfeito! Além da minha referência rushiana (risos)...
Sua referência rushiana é ótima! O Rush é uma daquelas bandas que atravessaram décadas, coerentes consigo mesmas, originais... E muitas vezes incompreendidas pela mídia ligada ao rock alternativo... Tem essa coisa da imprensa especializada incensar umas bobagens e não entender um monte de coisas sérias acho que fiquei velho mesmo... Um acorde do Geddy Lee vale mais que toda a "obra" dos Strokes... A décima nona derivação diluída do Velvet Underground
Nossa, e você nem é fã! (risos)
Tão diluída que não sobrou nada a não ser hype... Pra você ver... Quem tá há mais tempo na estrada acaba vendo a presepada que é essa coisa do hype...
Voltando aos 12 Arcanos... Tem influências do HQ Do Inferno, Aleister Crowley (pela cartas e clima sombrio), e a capa do CD que me lembrou o Dia dos Mortos (México)...
As influências que você citou são pertinentes, mas não de forma direta. Elas estão lá o tempo todo: quadrinhos, misticismo (como forma simbólica; sou ateu; materialista dialético)
Você consegue passar uma indignação ao mainstream na letra de Beleza...
Acho que sim. Sou um grande admirador do David Bowie, ele é uma grande referência pra mim, o modo como aborda a música, sempre buscando novos referenciais e desafios, sempre dialogando com outras formas de arte tudo isso é muito inspirador pra mim. Em beleza, o que aconteceu foi a tentativa de emular um processo criativo utilizado por ele na fase Berlin... Aquela coisa da escrita em cut and paste. Minha esposa tem um livro antigo do Oscar Wilde, e ele é todo cheio de colagens, sobreposições, etc. Fiz recortes sobre os recortes que ela havia feito num trecho do Retrato de Dorian Gray. E a coisa se escreveu desse jeito, estabelecendo essa abordagem que você coloca aí. Estas experimentações são o combustível pra uma banda que existe há mais de 15 anos e permanece à margem de tudo, entende? É o que me move...
Em "Desmorto" existe um clima bem sabbáthico, não? Com aquele riff se repetindo por quase todo o tempo da música... Você lembra quando começou a escrevê-la?
O Katú (guitarrista) apareceu com esse riff, e fomos estabelecendo os climas e variações, Black Sabbath é uma referência clara nessa música, mas gosto de pensar que temos algo a ver com Melvins também, uma de minhas bandas preferidas. Há um problema com o Mechanics... Acho nossa música meio difícil, a digestão dela é complicada, sabe? Somos pesados demais para os indies. E não somos "metaleiros" ortodoxos... Por isso a relação com o Melvins. Acho que o Mechanics tem várias camadas de leitura. Quem ficar na mais superficial, vai ver apenas uma banda de rock muito barulhenta. Mas existe toda essa pretensão experimental da qual tenho falado aqui, é como se fôssemos o Sonic Youth do inferno...
Você também trabalha com afinações diferentes em cada música?
Não necessariamente com afinações diferentes, mas com abordagens diferentes. Considero disco e show experiências distintas, não somos a típica banda que quer soar ao vivo como em estúdio (e vice-versa) o estúdio é um ambiente repleto de recursos.
Você prefere qual?
Como eu penso o álbum como uma obra, lanço mão de tudo o que pode me ajudar a compor esta obra. Já o show é uma performance, que se faz valer pela intensidade
Não fica mais difícil transpor essa música para o palco?
Como eu disse, não é exatamente uma "transposição". O disco é uma obra acabada em si e o show uma experiência que também tem fim em si mesmo. O disco é algo perene, eterno. E o show uma experiência efêmera, única.
No palco existem possibilidades de mudanças entre as apresentações...
Sim, sempre cada show é único mesmo que sejam as mesmas músicas. Ainda que nem sempre sejam as mesmas músicas. Trabalhamos também com abordagens distintas ao vivo, alguns de nossos shows mais notáveis foram ao lado de um grupo de performances ultra-radicais aqui de Goiânia, o Grupo EmpreZa. No momento estou começando a delinear uma parceria com o Queer Fiction, um coletivo de arte audiovisual pornográfica de Porto Alegre
Continuam trabalhando com eles? Que abordagem ao vivo será ditada para os 12 Arcanos?
Trabalhamos com parcerias sempre que possível. Quando não, é um show absolutamente cru, direto, insano. Tem que ter estômago...
Por quê? Tem momentos a la George Romero?
Mas digo ter estômago, pra aguentar um show, porque é barulhento mesmo!
Incomoda, é pouco pop.
Ah tá, mas isso só incomoda quem não gosta de rock!
Tem muita energia ali. É, é isso. Quem não gosta do Slayer...
Todo essse clima sombrio reinante nos 12 Arcanos não só nas melodias, como nas letras, capa, encarte/cartas, são elementos que você manipula, sem necessariamente estar sob influência deles, certo? Mas você gosta do que eles lhe proporcionam em termos de abrangência?
Pois é... Isso é meio complicado pra mim. Acho que a letra de Horror-Morbidez traduz isso. Existe em mim um certo tipo de atração pelo que é mórbido, avesso, estranho...
"...não consigo entender por que o horror me cheira bem..."
yep
Você sente isso o tempo inteiro?
Não. Ainda bem. É mais uma questão estética.







