quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Márcio Jr. - Mechanics 12 Arcanos


Depois de uma elogiada e endoidecida apresentação nos palcos do Festival DoSol em Natal(RN), o Mechanics sobe novamente ao palco do consagrado Goiânia Noise. Eles se apresentam no sábado, dia 20 de novembro, e promete um show insano com repertório focado no seu último trabalho, 12 Arcanos, sem deixar de lado os clássicos, que marcaram os seus 15 anos de carreira,  como “Formigas Comem Porra” e “Music for Anthromorfos”. Márcio Jr. é o vocal da Mechanics, além de fazer as letras. Na entrevista a seguir, Márcio fala das inspirações e possibilidades que permearam a criação dos 12 Arcanos.


Quando eu peguei o CD 12 Arcanos para ouvir, a primeira referência que me veio a cabeça foi quanto ao uso das cartas para representar cada música... Você sabia que o Rush usou cartas de tarô no álbum “Vapor Trails” de 2002?

Não. Não sou um grande fã de Rush e não sabia disso, mas fiquei curioso agora... Vou procurar isso aí. A idéia do tarô nasceu de outra coisa. Depois de um disco complexo como o “Music for Anthropomorphics” (que vinha com o livro do Zimbres), queria, como sempre, partir para outra experiência em nosso próximo trabalho. O que surgiu como possibilidade foi a idéia de gravarmos um álbum em português, o primeiro em 15 anos de banda. Gosto da proposta de álbuns conceituais, discos como coletâneas de músicas não parecem ser muito adequados para o Mechanics.


Até então você só tinha escrito uma música em português... O que lhe levou, além de ser uma proposta e um desafio, escrever em português?

Isso foi suficiente, era o desafio que eu estava querendo enfrentar no momento. Compor em português é algo complicado a sonoridade é outra, a métrica é outra... Muitas bandas compõem em português como se estivessem traduzindo do inglês, o risco de soar piegas é grande demais, o que parece soar cool em inglês, traduzido para o português corre o risco de ficar parecendo música do Raimundo Fagner.  Vejo muita gente se afundando nisso aí, então, o desafio era esse, tentar escrever algo em português, sempre escrevi em inglês (mesmo que no começo da banda meu inglês fosse absolutamente tosco) porque a música fica mais intuitiva, mais subjetiva, se você não racionaliza o que está sendo dito de maneira direta, a voz acaba se tornando um veículo de impressões, de atmosferas, acaba virando mais um instrumento e esta sempre foi a abordagem do Mechanics. Com 12 ARCANOS, quis romper com essa abordagem. Porque quando eu berro "Sou feito de ódio e vontade de morrer", isso tem um efeito direto e imediato para quem escuta a mensagem deixa de ser subjetiva, ela se torna uma mensagem mesmo, imediatamente decodificada, ou seja, tentar escrever em português no 12 ARCANOS  foi deixar de lado a abordagem impressionista da música, num paralelo com movimentos artísticos, acho o 12 ARCANOS um álbum mais, digamos, expressionista. Uma vez que em português a abordagem é mais direta, pensei em trabalhar as letras usando isso como estética. Elegi temas que são centrais ao "universo" do Mechanics: morte, drogas, sexo, tecnologia, violência, caos urbano, religião... E tratei deles de forma arquetípica, o conceito do tarô foi a liga que juntou todos esses temas no álbum e ele apareceu depois de eu assistir a uma palestra do Alejandro Jodorowsky. O Jodorowsky é cineasta (El Topo, Santa Sangre, A Montanha Sagrada), roteirista de quadrinhos (o Incal), dramaturgo (ao lado de Arrabal fundou o Teatro Pânico), criador da psicomagia, tarólogo (descobriu o tarô mais antigo que se tem notícia, o tarô de Marselha), o Jodorowsky é um dos meus heróis, um cara que transita entre diversas manifestações estéticas

Sim, ele é chileno...

E esse diálogo entre linguagens é algo que sempre tive a pretensão de realizar com o Mechanics (por isso, álbuns simples, como coletâneas de músicas, não interessam à banda). Pensei então em fazer a amarração de todo o disco 12 ARCANOS, através do tarô e numa abordagem, digamos, pós-moderna.
Há a proposta de se colocar o disco no shuffle e ver a ordem que vai se desenhar para esse conjunto de músicas entende? As distintas maneiras que esses conceitos se articulam entre si

Você compôs as músicas antes de pensar nisso? A unidade se concretizou com a idéia das cartas?

Algumas músicas foram compostas antes da idéia do tarô, quando a coisa toda se desenhou na minha cabeça, continuei a compor dentro deste conceito e já pensando na arte do Lauro Roberto que era a pessoa que eu sempre tive em mente pra transmitir graficamente a densidade daquilo que eu tentava exprimir nas música.

                                                        Foto de Brunno Lobbo

É porque eu estava relacionando os quatro elementos tradicionalmente mostrado nas cartas de tarô: Terra, Fogo, Água e Ar e tem quase todos dentro das músicas dos 12 Arcanos.Terra é a carta Chão, Fogo é Fogo, Água é o Sangue, só faltou o Ar, não encontrei nada para relacionar...

Essa é a graça dos elementos arquetípicos eles são abertos à interpretação, o tarô não é necessariamente um processo divinatório, mas simbólico de leitura do inconsciente, nunca tinha pensado nos quatro elementos, mas posso estabelecer ligações agora

Sim, são cartas de autoconhecimento...

O ar é aquilo que se respira, então há elementos disso em Desmorto ou mesmo em perder o chão ou ainda na atmosfera da Cidade

No desenho da carta tem um homem cujos pés estão suspensos do chão, no ar...

O que tá proposto nos 12 ARCANOS é essa interlocução com o ouvinte ele ajuda a completar a obra, não é uma audição passiva.

Perfeito! Além da minha referência rushiana (risos)...

Sua referência rushiana é ótima! O Rush é uma daquelas bandas que atravessaram décadas, coerentes consigo mesmas, originais... E muitas vezes incompreendidas pela mídia ligada ao rock alternativo... Tem essa coisa da imprensa especializada incensar umas bobagens e não entender um monte de coisas sérias acho que fiquei velho mesmo... Um acorde do Geddy Lee vale mais que toda a "obra" dos Strokes... A décima nona derivação diluída do Velvet Underground


Nossa, e você nem é fã! (risos)

Tão diluída que não sobrou nada a não ser hype... Pra você ver... Quem tá há mais tempo na estrada acaba vendo a presepada que é essa coisa do hype...


Voltando aos 12 Arcanos... Tem influências do HQ Do Inferno, Aleister Crowley (pela cartas e clima sombrio), e a capa do CD que me lembrou o Dia dos Mortos (México)...

As influências que você citou são pertinentes, mas não de forma direta. Elas estão lá o tempo todo: quadrinhos, misticismo (como forma simbólica; sou ateu; materialista dialético)


Você consegue passar uma indignação ao mainstream na letra de Beleza...

Acho que sim. Sou um grande admirador do David Bowie, ele é uma grande referência pra mim, o modo como aborda a música, sempre buscando novos referenciais e desafios, sempre dialogando com outras formas de arte tudo isso é muito inspirador pra mim. Em beleza, o que aconteceu foi a tentativa de emular um processo criativo utilizado por ele na fase Berlin... Aquela coisa da escrita em cut and paste. Minha esposa tem um livro antigo do Oscar Wilde, e ele é todo cheio de colagens, sobreposições, etc. Fiz recortes sobre os recortes que ela havia feito num trecho do Retrato de Dorian Gray. E a coisa se escreveu desse jeito, estabelecendo essa abordagem que você coloca aí. Estas experimentações  são o combustível pra uma banda que existe há mais de 15 anos e permanece à margem de tudo, entende? É o que me move...


Em "Desmorto" existe um clima bem sabbáthico, não? Com aquele riff se repetindo por quase todo o tempo da música... Você lembra quando começou a escrevê-la?

O Katú (guitarrista) apareceu com esse riff, e fomos estabelecendo os climas e variações, Black Sabbath é uma referência clara nessa música, mas gosto de pensar que temos algo a ver com Melvins também, uma de minhas bandas preferidas. Há um problema com o Mechanics... Acho nossa música meio difícil, a digestão dela é complicada, sabe? Somos pesados demais para os indies. E não somos "metaleiros" ortodoxos... Por isso a relação com o Melvins. Acho que o Mechanics tem várias camadas de leitura. Quem ficar na mais superficial, vai ver apenas uma banda de rock muito barulhenta. Mas existe toda essa pretensão experimental da qual tenho falado aqui, é como se fôssemos o Sonic Youth do inferno...

Você também trabalha com afinações diferentes em cada música?

Não necessariamente com afinações diferentes, mas com abordagens diferentes. Considero disco e show experiências distintas, não somos a típica banda que quer soar ao vivo como em estúdio (e vice-versa) o estúdio é um ambiente repleto de recursos.

Você prefere qual?

Como eu penso o álbum como uma obra, lanço mão de tudo o que pode me ajudar a compor esta obra. Já o show é uma performance, que se faz valer pela intensidade

Não fica mais difícil transpor essa música para o palco?

Como eu disse, não é exatamente uma "transposição". O disco é uma obra acabada em si e o show uma experiência que também tem fim em si mesmo. O disco é algo perene, eterno. E o show uma experiência efêmera, única.

No palco existem possibilidades de mudanças entre as apresentações...

Sim, sempre cada show é único mesmo que sejam as mesmas músicas. Ainda que nem sempre sejam as mesmas músicas. Trabalhamos também com abordagens distintas ao vivo, alguns de nossos shows mais notáveis foram ao lado de um grupo de performances ultra-radicais aqui de Goiânia, o Grupo EmpreZa. No momento estou começando a delinear uma parceria com o Queer Fiction, um coletivo de arte audiovisual pornográfica de Porto Alegre

Continuam trabalhando com eles? Que abordagem ao vivo será ditada para os 12 Arcanos?

Trabalhamos com parcerias sempre que possível. Quando não, é um show absolutamente cru, direto, insano. Tem que ter estômago...

Por quê? Tem momentos a la George Romero?

Mas digo ter estômago, pra aguentar um show, porque é barulhento mesmo!
Incomoda, é pouco pop.

Ah tá, mas isso só incomoda quem não gosta de rock!

Tem muita energia ali. É, é isso. Quem não gosta do Slayer...

Todo essse clima sombrio reinante nos 12 Arcanos não só nas melodias, como nas letras, capa, encarte/cartas, são elementos que você manipula, sem necessariamente estar sob influência deles, certo? Mas você gosta do que eles lhe proporcionam em termos de abrangência?

Pois é... Isso é meio complicado pra mim. Acho que a letra de Horror-Morbidez traduz isso. Existe em mim um certo tipo de atração pelo que é mórbido, avesso, estranho...

"...não consigo entender por que o horror me cheira bem..."

yep

Você sente isso o tempo inteiro?

Não. Ainda bem. É mais uma questão estética.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Beto Cupertino (Violins)

Beto Cupertino é o cara das palavras escritas e cantadas no Violins (GO). A banda se apresentará dias 13 e 15 de novembro no Festival Dosol, Natal (RN) - veja entrevista com Anderson Foca, horário e outras atrações no Portal Rock Press. Na entrevista a seguir, Beto Cupertino fala sobre as músicas do último CD da Violins (Greve das Navalhas), inspirações e influências musicais. Confira!



Que influência musical você aponta para esse novo trabalho? 

Acho que não há nenhuma influência que eu possa apontar em particular, esse disco foi pensado pra ser musicalmente calcado em um estilo de som que a gente gosta muito, que é a junção de guitarras densas com melodias. Acho que é mais fácil citar esse nicho musical que a gente pretendeu com a composição do álbum do que apontar uma influência x ou y, porque cada integrante da banda traz uma bagagem diferente. 

Qual é a sua bagagem? O que ou quem lhe trouxe onde você se encontra agora, musicalmente falando, é claro...

Bom, o caminho é longo. Ele começa desde Beatles, Zombies, Beach Boys, passa pelo progressivo de Pink Floyd, dá aquela passeada pelo Grunge e pelo indie 90´s, e também música brasileira, com Chico Buarque, Caetano, que ouvi muito na adolescência, enfim, acho que é por aí. É difícil citar nomes porque realmente ouço e ouvi muita coisa e nem eu mesmo sei ao certo o que me influenciou e o que deixou de influenciar e em que grau isso aconteceu. No fim das contas, acho que tudo que você ouve te influencia de alguma forma, seja para captar o lado positivo, seja para saber o que você realmente não quer pra si.

A arte da capa é uma síntese em relação ao tema proposto no álbum: o fim simbolizado pelo X, e ao mesmo tempo como se fosse uma tentativa de remendar algo que não tem mais conserto... Pedro Saddi (tecladista) fez a arte depois de todas as músicas compostas? 

Sim, ele fez a arte da capa depois do disco estar já concebido, então ela segue a tendência do que está sendo passado nas músicas. Particularmente gostei muito dessa capa, achei bem representativa!

Seria muita divagação dizer que algumas músicas estão relacionadas a Lei dos Três Estados de Augusto Comte? Você estudou filosofia, não? O teológico seria a “Roda da História” e “Morte da Chuva”, a existência do homem, são as duas únicas músicas que você menciona um criador. O metafísico na “Reinvenção da Roda”, a origem e o destino de todas as coisas e o positivismo em “Um Só Fato”.

Acho que Roda da História e Morte da Chuva não chegam a ser músicas de cunho teológico, elas tratam do tema sob um aspecto muito mais mundano, descompromissado com idéia de Deus. Em Roda da História, Deus é citado mais como um brincalhão. De um modo geral, as músicas todas do disco não possuem muito de metafísica e teologia, elas são muito mais terrenas e mundanas, tratam de temas imanentes, de coisas que estão na terra e na nossa cara. Não tive intenção de fazê-las soar cheias de preceitos metafísicos ou teológicos, não tive essa pretensão. Elas devem soar mais simples.


Que disco temático/conceitual que você mais gosta dentro do rock/pop?

Eu ficaria com Pink Floyd - The Wall.


Você já deve ter lido diferentes versões a respeito do tema de "Greve das Navalhas": 'quem olha só com os olhos não vê/o assunto que discuto'. Era seu propósito deixar margem para diversas interpretações?
Isso é inevitável, no meu ponto de vista, porque qualquer coisa que eu escreva, por mais claro que eu pense que seja, as pessoas vão receber de uma forma diferente daquilo que pensei, cada um fará sua interpretação de acordo com suas experiências, com sua disposição cognitiva, enfim, o modo como as pessoas recebem a música e a letra é muito subjetiva. O que a gente pode fazer, no máximo, é criar um clima para o álbum, uma determinada atmosfera geral que permeia o decorrer das faixas que o compõem, mas é um exercício impossível fazer música que tenha interpretação fixa e determinada, eu sinceramente não conseguiria fazer isso. No entanto, vejo isso com bons olhos, acho muito legal que cada pessoa possa fazer sua própria interpretação e tomar pra si a música e sua letra.


Qual música deu início ao tema do álbum? Existiu essa intenção conceitual desde a primeira música composta?
Uma das músicas que iniciaram todo o processo foi "Comercial de Papelaria", que já possuía um viés de mensagem mais otimista. Depois me dei conta que estava fazendo uma série de músicas em que a temática do sol e do fim eram recorrentes. Acabou que me dei conta da idéia de falar sobre o fim sob um prisma otimista, que é um modo menos clichê de ver as coisas e cumpriria dignamente aquela atmosfera geral que mencionei na resposta anterior.


Qual foi a principal inspiração para escrever as letras de Greve das Navalhas?
Creio que essa paranóia atual que estamos vivendo de insegurança sobre o futuro da humanidade. Ela não é nova, claro, já existiu há algumas décadas atrás. Mas os motivos são sempre reinventados. Vira e mexe, você abre um site, lê uma revista, vê um filme, enfim, algo que volta a essa preocupação fundamental com os rumos do mundo, seja por medo dos anseios nucleares dos países em guerra religiosa, seja pela teoria sobre 2012, são muitos motivos. A idéia foi então transformar isso em algo menos paranóico, mais sereno, contemplativo, aceitar que, se o mundo está indo pro buraco, é natural que ele vá, porque não vai durar para sempre, e isso está ok. É como se fôssemos entrar em desespero pelo fato de que todo homem nasce e morre, quando isso é natural. Então a idéia era a de subverter essa paranóia em uma percepção mais contemplativa e lúcida do começo e do fim das coisas, sem transformar isso num grande drama.


"A Fila", por exemplo, tem quatro andamentos/batidas diferentes. Isso se tornou uma constante conscientemente?
Sinceramente, não é algo premeditado. Quase sempre descobrimos essas mudanças de andamento quando vamos programar os metrônomos para gravar. É uma mania minha como compositor a de tentar explorar climas no decorrer de uma música, mas é algo puramente intuitivo, coisa que nem percebo na hora que estou fazendo. Depois é que complica na hora de gravar, mas depois de cinco discos já pegamos a manha de executar essas mudanças seguindo o metrônomo. Dá mais trabalho, mas eu me sentiria bem limitado se tivesse que começar a compor preocupado em evitar isso ou aquilo.

Mesmo sendo algo não premeditado, você teria alguma explicação para que isso tivesse início? Algum estilo musical lhe levou a seguir essa linha?

Acho que deve ser resquício do progressivo! É a única explicação que eu acho (risos).


Qual dos discos do Violins você aponta como seu favorito e por quê?

Já essa é uma pergunta muito difícil de responder, é como você me pedir para escolher um filho preferido. Acho que cada disco tem passagens que significam muito para mim, cada um teve sua história e seu momento de acontecer, então é difícil falar de um, quando você tem seis. Eu não consigo ter esse olhar de preferência sobre os discos que fizemos, eu os vejo de uma forma muito mais fraternal, eles estão muito ligados na minha cabeça. É, para mim, como se fosse uma obra só. E ela ainda está incompleta na minha cabeça, por isso não consigo ter esse pensamento de destacar um, como se já tivesse o montante da obra toda pronta. Ainda vejo que há muito o que fazer, seja com a banda, seja sozinho, porque música na minha vida será um exercício recorrente enquanto eu tiver saúde para compor.

Luciano Viana disse que “Do Tempo é canditada séria a uma das melhores músicas de rock do ano”. Nela tem um verso que retrata um fato que vivenciamos todos os dias na esquina da nossa casa: “Pouca gente vai morrer de velho”.

Pô, que legal que ele pense isso. É uma música sobre a consciência da nossa finitude e sobre como isso se desenrola de uma forma totalmente autônoma, o ciclo da vida é uma máquina que funciona sozinha e nós temos pouquíssima influência no seu funcionamento, por mais que criemos grandes pilares para nos segurarmos, por mais crenças e grandes justificativas que sejam formuladas, no fim a máquina começa e deixa de funcionar na hora que ela quiser e ela apaga quem faz o bem e quem faz o mal da mesma forma, sem a mínima recompensa. Todo mundo é igual diante do tempo.

Na música seguinte “Fluorescente”, você contradiz essa afirmação da nossa finitude, dizendo: “Ninguém morreu e nasceu diversas vezes como eu/Ninguém!”

Em fluorescente a idéia de vida e morte diversas vezes tem um viés mais metafórico, de você se desconstruir e reconstruir diversas vezes. Trata das mortes diversas que temos quando acontece algo ruim, quando algo acaba, e como sempre tornamos a viver com o passar do tempo e com uma nova vida que surge de toda desconstrução dessa.

“Tsunami” é uma música difícil de cantar, mas a melodia fica rondando a cabeça, a combinação da devastação natural do fenômeno e a atitude, aparentemente, discrepante de ser otimista, diante da tragédia. Em minha opinião, ela consegue condensar todo o clima do disco, descrito por você.

Exatamente. É uma música que narra uma tragédia com final feliz. Dentro daquela idéia geral que comentei sobre o disco.

Numa entrevista para o blog “Tenho Mais Discos Que Amigos” em julho desse ano, você disse: “Eu mesmo não compro um disco há muito tempo”. Creio que foi a frase mais triste que ouvi nos últimos 15 anos! Nem imagino que um dia eu possa deixar de fazer isso. Quando você perdeu o gosto por adquirir CDs/LPs de bandas que você gosta?

Na verdade nunca tive apego a discos, não tenho esse apego pelo cd material. Minha relação é muito mais com a música, e isso não importa se ela está no cd, num pendrive, num mp3 player, o que importa para mim é a música poder ser ouvida. Eu entendo e admiro quem tem esse apego pelo cd, pelo encarte, por tudo que envolve, mas eu nunca consegui ter essa paixão.

Você está satisfeito com o que a banda fez nesses nove anos de existência? Você mudaria alguma coisa, se pudesse?

Acho que a gente fez o que pôde.  Alguém poderia dizer que nós poderíamos ter nos dedicado mais, mudado de cidade, arriscado mais, etc., mas se não fizemos é porque nossa vida foi seguindo um rumo que não tornou isso possível e eu não tenho nada a lamentar. Acho que como banda fomos muito mais longe do que eu pensei que iríamos quando montamos tudo lá no início. Recebo quase diariamente mensagem de pessoas que escutaram a banda e descobriram nela um motivo para passar melhor um dia, para se inspirar para algo, para se sentir representado pela letra, confortado por uma melodia, e para mim se uma pessoa, uma só, foi ajudada pela banda para que a vida seja melhor, isso já valeu a pena não só a existência da banda, mas minha própria existência.

Para finalizar, deixo uma citação para você comentar: “Acho que há uma relação, talvez não reconhecida entre a bateria e as palavras, devido à estrutura do ritmo e versos. Eles são especialmente fortes e tão eficientes quanto a bateria. O padrão do pensamento acima de tudo funciona como as palavras e o rufar da bateria”. Neil Peart

Concordo plenamente. Acho que o grande baterista é aquele que consegue captar a alma da música, o que ela quer passar, e transforma isso em ritmo. Sabe a hora do silêncio e a hora do barulho. Em que momento deve haver drama e em que momento deve haver alívio, quando deve haver tensão e quando deve haver relaxamento. Eu admiro muito o Pierre (baterista) porque ele é um baterista sensível a essas questões. Uma banda precisa ter os seus integrantes imersos na idéia da música para que a música possa ser a união de todos os instrumentos numa só idéia, em vez de cada instrumento falar sua própria língua e a música ser uma junção de individualidades isoladas. Em muitas músicas, se não houvesse determinada batida de bateria ou determinada linha de baixo, ou mesmo uma melodia do teclado, o resultado final seria absolutamente diferente, desprovido de emoção, sem alcance.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Shiko, o antiartista plástico

"Não, Shiko não é uma banda, nem tão pouco compositor, mas nem por isso, deixa de ter traços cheios de rock'n'roll." Quem sabe isso não vai parar numa letra de uma banda de rock? E é por essa razão que ele está aqui, por essa e tantas outras que talvez entendam depois de ler o texto abaixo da Carol Morena. Boa leitura. E se ainda não conhece Shiko, boa descoberta!


“Eu era romântico, poético, tarado, viado, sapatão, louco, psicopata, (...) umas pessoas ficam ofendidas, outras encantadas...”.


Esse do desenho é Francisco José, o Shiko, e é isso o que ele provoca. Pra entender o porquê, é só olhar as imagens ao lado e perceber do que trata o seu trabalho, na realidade seu traço, a expressão dos olhares, as temáticas, e a personalidade forte e meio maluca, perfeitamente impressa nas telas. Não há como passar despercebido. Um mundo ganha forma e é traduzido cheio de detalhes, sombras e texturas. Escultor, grafiteiro, pixador, quadrinista, fanzineiro... Pinta em tela, papel, parede, geladeira, porta... Com tinta, caneta, lápis, cera, faz storyboard, desenhos pra tatuagem, campanhas publicitárias, capas de CD, flyers, cartazes, tudo ao mesmo tempo, mas odeia ser tachado de artista plástico. “É algo que não diz nada sobre o que você faz. Quer dizer que você pode enfiar uns pregos num sabonete, sei lá. E minha vida como artista plástico seria como? Produzir um material que seria exposto, colocado à venda? Isso é o que eu menos faço, nunca foi o foco que eu quis dar”. Shiko é intenso assim. O clássico artista marginal, que adora temas como boemia, noite, álcool, pornografia, música, cinema...

A sua história e a de sobrevivência com o que faz é quase uma utopia para os artistas como ele, pois o cara consegue sustentar-se só de arte, nunca tendo trabalhado com mais nada na vida. Tem suas pinturas espalhadas por toda a cidade e é conhecido e respeitado por conseguir desenvolver seu trampo nas mais diversas mídias. Não é à toa que ele já é uma lenda viva na cidade, desde que chegou a João Pessoa, há dez anos. Não há quem não o conheça.

Shiko nasceu em Patos, cidade a 300 km de João Pessoa, e lá viveu até os 18 anos. Nessa época ele já fazia uns desenhos pra tatuagens, camisetas de amigos, e produzia o Marginal Zine, onde publicava seus quadrinhos. Mudou-se com a família pra Brasília, onde viveu por dois anos e, de repente, como ele mesmo diz, sentiu vontade de morar aqui em João Pessoa, junto com a irmã. E veio.

Por conta do zine conheceu gente que trabalhava com vídeo, produção e música. Fez amigos e começou a desenvolver flyers pra todo tipo de shows: desde os da galera do hardcore até para os da turma do hip-hop, além de capas de CD das bandas do circuito underground. Assim foi ficando conhecido, e para passar pra o trabalho em tela e grafite foi um pulo. Percebeu as mil possibilidades de campo de atuação, foi se descobrindo e consolidando seu nome e trabalho. Era impossível passar despercebido.

A partir daí tudo começa a funcionar, principalmente pela verdade expressa em tudo que faz. Você nota que aquilo é real, faz parte mesmo do universo do artista, e isso faz chamar a atenção. Tudo parece muito objetivo ao primeiro olhar, mas é só observar um pouquinho mais pra perceber algo como “mensagens subliminares” nos trabalhos atuais: nomes de discos, títulos de livros, um adesivo ou um cartaz qualquer colado aparentemente sem intenção alguma. Tudo, absolutamente tudo, faz parte de um único universo, o dele.

Entre suas telas, um dos modelos que mais chamam a atenção é o dos armários e estantes (fotos 3 e 4). Nela podem-se observar mais claramente as características citadas no parágrafo anterior, que faz você ficar curioso, querendo ir a sua casa pra saber se tudo aquilo é verdade mesmo e o que mais tem por lá. Eu, claro, usei a desculpa dessa matéria para fazer-lhe uma visita.

Era exatamente como nos meus sonhos: tubos de tinta espalhados por todo canto, discos, muitos livros, paredes pintadas, colagens na porta, stencils, pedaços de papel... E a mesa! Sim, a mesa do artista. Aquilo ali parece um mundo paralelo: uns recortes e desenhos inacabados, gibis, lápis de todos os tipos, tintas de todas as qualidades e uma luz maravilhosa. Tudo meio bagunçado, mas a chamada “bagunça criativa”, sabe? Aproveitei minha visita pra saber por que ele gosta tanto de usar esse formato do armário. Shiko não podia ser mais direto: “Quando você chegou aqui hoje, a primeira coisa que perguntou foi se podia sair fuçando nas coisas. Pois é, a gente adora fazer isso! Chegamos na casa de alguém, aí você acaba ficando uns minutos só na sala e já começa a mexer nas coisas que ela deixou em cima da mesa, olhar os discos que ela tem, os livros da prateleira, por exemplo. E isso é uma maneira que temos de conhecer mais sobre alguém, ver seus objetos pessoais. Essas estantes que eu faço tem isso. Todas têm uma unidade, nada está ali por acaso, elas pertencem sempre a uma pessoa ou a um só universo, dá pra relacionar aqueles livros com aqueles discos que estão lá... E é do caralho a conversa que rola depois de alguém ver um quadro desses” Pois é, olhar aquilo é uma delícia! Essas tais conversas raramente são sobre técnicas ou escolha das cores, por exemplo. Ela se transpõe pro mundo real com questões como “ah, você tem esse livro? Que bacana, eu tenho um outro livro dele, você quer emprestado?” ou “Ah, você gosta de tal CD? Há tempos eu estou procurando por ele!”. E é esse tipo de reação que Shiko diz mais gostar. A possibilidade também de gerar uma conversa paralela, conhecer gente com interesses parecidos, observar reações, ver o mundo vendo o mundo dele.

E aí nós encontramos outra paixão do artista: gente. É assumidamente o que ele mais gosta de pintar, formulando toda uma situação, um pensamento, e características fortes. Algo que é muito peculiar é que geralmente um personagem que observamos é curiosamente parecidíssimo com alguma outra pessoa que faz parte do seu circulo de amizades, ou seja, existe muito a impressão que você conhece aquela pessoa de algum lugar. Quer um exemplo? Na terceira imagem ao lado, o cara mexendo na pick-up é parecidíssimo com o Chico Corrêa, músico, amigo e figura carimbada na noite da cidade, e a Olívia é parecidíssima com uma ex-namorada do Shiko. “Não é uma regra, mas geralmente isso acontece, de eu fazer uma pessoa pensando em alguém real, mas nunca vou ter a preocupação de fazer um retrato dela. Eu penso mais nas características, o jeito de se vestir, o cabelo, a forma de sentar... Talvez seja isso que dê o resultado que parece que você conhece aquela pessoa de algum lugar”.

É tudo muito mágico e muito sensível. Ele sabe como chamar a atenção e faz isso naturalmente, é seu retrato, seu cartão de visitas. Costumo dizer que ele é o cara mais rock’n roll que eu conheço: vida e trabalho; assuntos e comportamento. Dorme às 6:00 da manhã, acorda às 13:00 pra pedir a marmita do almoço, passa as tardes e início da noite trabalhando em alguma coisa (trabalho nunca falta, pode apostar!) e depois sai pra beber e ver sua maior inspiração: gente e boemia. Nunca, eu disse nunca, perca uma oportunidade de tomar uma cerveja com esse cara. É conversa até amanhecer, regada com as histórias mais loucas que você já ouviu e ainda vai ouvir. Shiko é uma figura e tanto. Talentoso que só ele, e, principalmente, é cada um dos seus personagens.

Por Carol Morena. Publicado originalmente no Overmundo em outubro de 2006

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Sex On The Beach é surf music no Cariri


Nem só de mar vive o surf music brasileiro. O melhor festival nacional do gênero fica nas montanhas mineiras e um dos melhores representantes nordestinos é de Campina Grande, cidade do Cariri paraibano, chamada Sex On The Beach. Um trio formado pelo guitarrista Diogo Pafa,o baixista Marlo Simaskowsk e o baterista Tonny Lira que desponta no cenário com sua música instrumental primorosa e instigante. Campina Grande é uma cidade cosmopolita e avançada que congrega pessoas de toda a região, como no caso do alagoano Diogo e do sergipano Marlo, estudantes que resolveram formar a banda junto ao local Tonny. O combo nem completou um ano de existência já lançou um EP e fez uma turnê proveitosa por vários estados do país. O primero disco cheio deve sair ainda este ano. Convidamos o baterista Marlo para esclarecer qual é a praia do Sex On The Beach. Let´s surfing!

Como é fazer “surf music” distante da praia? Fale sobre a banda.

Marlo -Não é complicado fazer surf music longe da praia. Nem estamos tão longe assim, na verdade. São só 120Km de distância. Mas, daqui, fazemos usando a imaginação. Não é preciso estar na Jamaica para fazer Reggae ou estar no Brasil para fazer Samba ou no Espaço para fazer Psicodelia. É uma questão de estado de espírito e de imaginação. Essa regra vale para nós também. Apesar da banda ser campinense, apenas um integrante não é “praiano”. Estamos apenas geograficamente longe da praia. Mas sempre continuamos imaginando (ou indo) a uma praia aqui por perto.

A Sex fez um ano agora há pouco tempo. Nesse primeiro ano fizemos um EP, o “Wanna some Sex on the Beach?” E demos uma circulada por quase todo o nordeste e alguns lugares do Centro-Oeste e Minas, tocando em festivais, casas de shows e onde deixassem. Fizemos inúmeros shows aqui na cidade. Demos uma passada algumas vezes em João Pessoa também. A Sex tem influências variadas, provavelmente devido às diferentes formações que cada um teve, desde sons mais clássicos como Dick Dale e Ventures, passando pelos brazucas do The Dead Rock e Retrofoguetes chegando ao velho e bom rockabilly. Essas são as influências diretas. Obviamente tudo que cada um ouve acaba entrando implicitamente em algumas composições, é a ordem natural da coisa. E assim rola bacana.

Você é de outro estado e atualmente reside em Campina Grande. existe alguma diferença? como é que a cena rock campinense?

Marlo - Existem algumas diferenças nas cenas das duas cidades sim. Aracaju é uma cena que tem bandas fantásticas, porém falhava na articulação de shows e na circulação de bandas. De dois anos para cá a coisa em Aracaju mudou (e vem evoluindo), com isso mais bandas e artistas estão produzindo e se espalhando em por várias cidades. De 2004 a 2008 Aracaju passou por uma onda cover forte, e isso enfraqueceu e desestimulou muito a cena. Outra diferença são as casas de shows. Lá existe um número maior de casas organizadas para receber um show de pequeno/médio porte. Em CG temos poucos lugares pra tocar ou produzir um evento.

Um ponto negativo em comum das duas cidades, é que nenhuma das duas tem um festival de música independente. Acredito que este ano a isso deva mudar. E é importante que acontecer pelo menos um anualmente. Sobre a cena campinense em particular, aqui a cena rola como em qualquer outro lugar. O diferencial daqui é o público muito disposto. Todo mundo é sempre muito aberto a coisa novas. Vale lembrar que CG é interior, o que em termos comparativos deixa a cidade numa posição bem bacana. Acredito que por ser uma cidade universitária a galera tem mais “punch” para sair de casa e se divertir, conhecendo outros sons e outras pessoas. Geralmente o público é mais numeroso do que nas outras cidades. No cenário independente, é uma das poucas cidades do Brasil que pode rolar um show numa quinta e dar mais de 200 pessoas. Mas também é uma cena que, em termos de articulação, só de 2 anos para cá que começou a se organizar. Tradicionalmente, na cidade surgiram nomes e bandas sempre de excelente nível. De exemplo vale citar o Cabruêra, Aerotrio, Hijack, Toninho Borbo, Oxent Groove, Freqüência Zero e etc. São nomes que chegaram na minha cabeça agora. Bandas novas estão ganhando cada vez mais corpo também. A Valsa de Molly e a Warcursed são duas bandas recentes que fazem um trabalho com bastante dedicação.

Tu és um dos idealizadores do coletivo Natora. Por que criaram o coletivo e qual seu objetivo?

Marlo - Eu, Diogo Rocha e Giancarlo Galdino que damos o pontapé inicial. A Sex on the Beach, muito antes da formação do coletivo, já trabalhava tentando interligar cenas. Mais bandas e interessadas em parcerias se juntaram nós. Quando percebemos, estávamos naturalmente trabalhando de forma coletiva. Com a entrada no Circuito Fora do Eixo, oficializamos o coletivo aqui com o objetivo de fazer a troca de tecnologias e produtos culturais com outras cidades e estados. Descobrimos que em João Pessoa tinha muita gente trabalhando da mesma forma que nós, então unimos pontos em comum e fizemos parcerias. Funcionou assim com quase todos os estados do NE. Hoje é fundamental toda banda e produtor estarem conectados com a máxima quantidade de pessoas que atuam de forma similar com a sua. O músico é tão parte do processo quanto o produtor e o parceiro da casa de shows. É nessa perspectiva que o coletivo trabalha. É um espaço sempre aberto a aprendizado, críticas e novas parcerias.

A Sex on the Beach é uma banda essencialmente instrumental. Como não sendo muito comum, existe alguma dificuldade de produção (shows, gravação, etc) neste estilo?

Marlo -Até hoje não encontramos dificuldades por nós sermos instrumental. A cena instrumental brasileira certamente está melhor agora. Temos mais espaço e visibilidade hoje do que há tempos atrás. Acredito que uma banda instrumental tem a grande vantagem de não precisar de um equipamento de som tão grande, e isso acaba viabilizando financeiramente um show. Para um power trio, mais simples ainda. No limite, a Sex mesmo consegue fazer um show com um amp de guitarra, um de baixo e uma bateria. Então bem tranqüilo de tocar em qualquer lugar. É só ter energia (elétrica) e disposição.


Fale um pouco das referencias sonoras da banda.

Marlo - Bambi Molestrs, Dead Rocks, Retrofoguetes, Los Straitjackets, Dick Dale, Ventures, Swadons e Pata de Elefante são sons que nos influenciam diretamente. Obviamente, a gente acaba conhecendo outros sons em outros estilos… E tudo isso faz a soma na hora de compor e desenvolver um tema. A troca de experiências com outras bandas também ajuda no desenvolvimento do processo. A Sex tem um trilho e vários vagões. Cada um coloca o que quiser no seu vagão. Mas é importante que o trem não saia do trilho.

Quais os planos futuros da banda?

Marlo - Depois da Tour Invasão Paraibana que fizemos junto com o Nublado pelo Centro Oeste, Bahia, Alagoas e Minas, nos concentramos nas novas músicas e nas composições.
Estamos pré produzindo as músicas do próximo CD/EP. A proposta é em setembro/outubro estar com o material gravado e fazer um show de lançamento em Campina Grande e João Pessoa. Agora, em junho e julho estamos nos concentrando apenas nisso. Em agosto vamos tocar na Feira da Música de Fortaleza e no BNB Cultural. No segundo semestre começa a temporada dos festivais e queremos estar preparados daqui até lá. Existe uma possibilidade legal para o próximo ano, fazendo uma “gig” pelo sudeste e sul. Mas por enquanto estamos trabalhando ainda. Nosso foco está nas músicas.

Qual a sua opinião sobre o atual mercado independente nacional?

Marlo - Falar de mercado independente hoje é falar da internet. O mercado mudou quase que totalmente com a chegada dela. O streaming e o download vieram para ficar. No mercado, já tem muita gente antenada nisso. É questão de sobrevivência mesmo. E quem não estiver a tecnologia acaba engolindo.

Temos uma nova geração de consumidores. O público que hoje tem 18 anos, muitos deles não compraram um CD na sua vida. É tudo no mp3, no computador e etc. Então, um CD não tem tanta representatividade para essa galera como teve para mim, saca.
Claro que o disco não deixa de ser importante. Mas, hoje, ele não é mais essencial. A essência hoje é a própria banda. É assim que o disco vai chegar mais facilmente ao público. É a banda que vai chegar nas cidades com os CD’s. A lógica do mercado anterior era inversa.

Existe uma infinidade de bandas, selos, produtores, festivais e redes pensando no novo formato da música independente. A internet não é o futuro da música independente. O futuro é será outra coisa. A internet é o presente. temos que pensar mais a frente da internet. Acho que o caminho é esse. É não esperar que algo aconteça, e sim fazer a coisa acontecer.

A cena nunca é feita por uma pessoa ou por uma banda. Historicamente, as cenas foram construídas a partir de grupos. Acredito que o modelo que está sendo construído agora, com a política de redes interligadas, é o novo mercado independente. É essa galera (Circuito Fora do Eixo, Rede Motiva, Rede Minas, Fórum Nacional de Música, Banco de Palmas (Ecosol), MPB - Musica para Baixar, Rede Música Brasil, Feiras da Música e etc..) que está pensando e repensando ferramentas para que a música chegue, com um formato e padrão de qualidade bacana, cada vez mais em mais lugares. Afinal. Este é o objetivo final e comum.

O que achas sobre a música na era da internet?

Marlo - Particularmente, acho primordial a idéia do download e do streaming pela internet. O produto final de uma banda não é mais o disco, e sim a própria banda. Hoje, nem mesmo financeiramente o CD compensa como compensava antigamente. Há uma rara exceção: cidades do interior. Em cidades onde o uso da internet não é tão extensivo, além do show, o CD funciona muito bem! O que compensa, na maioria esmagadora dos casos, é seu álbum estar disponível livremente na internet e através disso a sua música se propagar para que a banda possa sair para tocar em cidades que nunca se imaginou. Gosto da idéia de tudo ser disponibilizado na rede. Mas há uma diferença grande entre disponibilizar o material na rede e a banda não se disponibilizar para tocar. A internet é apenas ferramenta. O show é que completa.

Link para baixar EP

Publicado originalmente no blog Meusons por Jesuíno André

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Could you Explain? Single Parents EP


Single Parents mostra em apenas quatro músicas um mundo criado entre diálogos inexistentes e situações reais ou vice-versa. As músicas são ligadas como numa seqüência de episódios de uma série, que existem por si, mas não fazem sentido separados. As quatro músicas do EP “Could You Explain” extravasam relações amorosas e interpessoais em lugares comuns, sem cair no lugar comum. “Last Conversation” tanto poderia estar numa trilha de um filme ambientado em Nova Iorque ou São Paulo (cidade do trio). Nos versos: “Some issues we can work it out/I’m glad this conversation is before the dawn”, a citação confessional de Sir. Macca se mistura com as nuances de antes e depois do sol de Richard Linklaker. As influências do SP são citadas em versos como “I pretend I’m listening to Sonic Youth” ou como na bridge de “Contradictions” que remete ao Pixies. Talvez sejam ousiders dos tempos modernos. Espera-se que o tempo diga sim!

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O Céu Está Caindo


Bem-vindo ao nosso mundo nonsense. Dentro de alguns instantes estaremos transmitindo através de ondas curtas, dando assim, início a nossa viagem. Fique atento para o sinal em vermelho “no ar”, desse modo não será pego de surpresa por nossas intervenções sonoras. Preste atenção, pois não existem intervalos, nem nomes para as pistas. Não vamos parar, nem explicar nada. A escolha é sua. O que você pode fazer? “Você não faz porque não quer”. Aos quatro minutos uma voz vai dizer algumas palavras em inglês, mas você não vai entender a mensagem, o megafone vai distorcer tudo, não dê atenção. O céu depois de uns seis minutos vai cair, mas não se preocupe, algumas mudanças são necessárias quando se viaja para Crescenta Vale, ao som de uma famosa trilha de John Williams. Nada é tão complicado: “eu sou seu novo amiguinho/aperte a minha barriga”. Como no nosso mundo também existe futebol, basta você chutar pra gol e está tudo certo. Boa viagem!

Publicado no Portal Rock Press

quarta-feira, 17 de março de 2010

A Letra de Seu Pereira e Coletivo 401

Atendendo aos comentários que ouvi logo após postar o delirante comentário a respeito da letra do Seu Pereira e Coletivo 401, venho agora mostrar a letra com todas as letras. Talvez, eu disse talvez, assim, o comentário a respeito de Cabidela possa parecer menos "louco". Não que seja esse o principal intuito, mas como a maioria não conhecia a letra, aqui está. Para mim, a letra, infelizmente, é real demais... Tem sangue demais. Sangue que carregamos não apenas nas veias. Por fim, devo dizer que todas as referências afloradas foram a partir da música ouvida infinitas vezes.


CABIDELA (Jonathas Falcão)

Cheiro de sangue/rastro de bala
Não me abala tanto quanto uma família com fome
Pra matar a fome/o homem mata um leão por dia
Por muito menos mata um homem

Tá faltando leão no sertão
Tá faltando leão na favela
Tá faltando leão no subúrbio
O povo tá matando cachorro a grito, gato, cadela

A moela tá roçando/o cano deu o disparo
É ala comendo gente/é gente comendo barro
É barro, é lama preta, é berro de mãe aflita

Será que morreu de morte matada ou morte morrida?

A vida continua na próxima esquina
Carreira de pivete, de cocaína
Pipoco de carabina
Foco na carnificina
O medo se dissemina
O analista examina

Lampião e lamparina
Morte e vida Severina
Agora eu quero que tu diga o nome de 5
meninas/Que morreram de inanição
Com a boca no bico do peito murcho, cinzento
Pega um caixote/faz um caixão
E enterra na cova do esquecimento

Dança o calor no asfalto, num clima de bang bang
Rastro de bala, cheiro de sangue...

Cheiro de sangue, cheiro de sangue...
(Do churrasco mal passado de Zé)
Cheiro de sangue, cheiro de sangue...
(Do picado de Dona Tereza)
Cheiro de sangue, cheiro de sangue...

Cheiro de sangue, cheiro de sangue...
Da galinha cabidela dela
Cheiro de sangue, cheiro de sangue...
Com vinagre cozinhando na panela

Cheiro de sangue, rastro de bala
Não me abala tanto quanto aquele
pivete pedindo
Hoje é um pedinte/amanhã um ladino
O menino crescendo/o diabo sorrindo
A polícia matando, traficante vendendo
Um menor cheirando cola no calor do meio-dia
Um velho pedindo esmola, tocando na campainha
-Aí seu moço, já tem almoço?
Algum trocado no bolso pra eu completar a passagem?

É que eu tô só de passagem, ói eu vim lá do cafundó do Judas
Ai me ajuda, ai me ajuda, ai me ajuda
Tenha misericórdia de um pobre féla da puta...

Myspace do Seu Pereira e Coletivo 401